domingo, 20 de novembro de 2011

Piedra y camino


...o terceiro dia de viagem, talvez tenha sido um dos mais intensos. Depois de viver a solidariedade daqueles homens de estrada, que parecem que tocam a vida numa toada só, fomos até a beira da estrada com eles. A despedida foi em doses de  melancolia, generosidade e de esperança, esperança nossa de chegar ao destino e esperança deles de acreditar na nossa loucura. Fomos batizados pelo Gauchito, crendice do povo argentino, acabou apropriada pelos cristãos, santo popular. Enfrentamos, talvez a sensação que ali seria muito difícil uma carona, uma estrada no meio do nada em pleno 38 graus de uma manhã de domingo. Nos separamos, eu e natália andamos por uns 3km naquela paisagem, banhados por um sol de Saara. A espera demorou pouco, logo parou um caminhão que a tatiana e o sindri conseguiram, era mais uma carona conjunta. Já estávamos acreditando que seria assim até o fim da viagem. O caminhoneiro simpático no proporcionou empanadas, clássicos dos 80 e nossa chegada a Anatuya. Cidade pequena, mas me pareceu tão bem cuidada. Ali a estrada seria mais fácil. Paramos num posto, comunicamos pela primeira vez com nossa casa em Buenos Aires. Falar com a Letícia, foi realmente ligar pra minha família. Ali a paisagem era de clara transformação, que seguia desde Banderas, saímos das pampas de soja para umas pampas mais desérticas. Comecei a me sentir naquela América Latina, aonde a vida é dada em pulsos de muita luta, cores e terra. Andamos na frente, uns 2km. Pela primeira vez, tomamos carona primeiro, na carroceria de uma caminhonete por 10 km. Descemos, agradecemos e andamos. Em 5 minutos, um vectra resistente parou aos poucos, tinha dúvida, parou, não acreditamos, subimos. Era um casal simpático com um bebezinho tão risonho, conhecedor da região, rumavam pro festival de um santo em Mailín. Conversamos muito nos 50 km que andamos, com ar condicionado era fácil. Queríamos mais tempo pra ir conhecer o festival, cheirava Minas Gerais, cheirava romaria, ficamos pelo trevo mesmo. Eram muitos carros e caminhões, estávamos de volta a ruta 34. Muitos acenavam, mas os carros estavam todos cheios, até parar uma caminhonete, estava lotada, mas perguntou se queríamos andar mais 70km na carroceria. Subimos, o moço era pé quente, pegamos mais um homem pela estrada que foi sentado junto com a gente. Em Garza, já era perto de Santiago del Estero, o sol apontava 16:00. Íamos tentar arrumar mais uma carona, quando um senhor desceu da caminhonete e veio ao nosso encontro. Era um senhor tipicamente gaúcho santiagueño, agricultor que provavelmente trabalha com gados, charqueadas, laços e leva o típico lenço no pescoço. Uma roupa digna de domingo de santo. Estava com parte de sua família e um amigo. De onde éramos? O que fazíamos por aquela bandas? Curiosidade brejeira. Depois de meia dúzia de palavras, veio o convite sincero pra tomar um mate. Aceitamos. Ali talvez começasse uma das experiências mais tocantes daquela viagem, dessa minha vida. Mas isso já merece uma postagem em separado. Andamos por aquela rua de pedrinhas com uma estação de trem ao lado, com casinhas ao fundo naquela paisagem plana, seca e tenra...