segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Raízes y Raíces

“Ande por donde ande, yo no dejo de saber a que
 tierra pertenezco si la llevo puesta, si camino con
 ella, si soy ella”.

 Eduardo Galeano.

No terceiro dia, aconteceu uma das coisas mais generosas e  emocionantes numa tocada gratuita. Depois daquela carona de sentir o vento, o medo e a velocidade...descemos, em instantes, estávamos parado defronte para um homem. Puxou papo, montado naquela roupa de domingo de santo, na variação santiagueña dessa planície gaúcha, campesina e que se espalha por todo a bacia do prata. Era o homem, o amigo, a mulher, o neto e nós dois com aquelas mochilas enormes. Ali todos se ligam, eles, nós, o uruguai, a argentina, o brasil, o paraguai. O convite veio pelo mate, nos aceitamos e começamos a caminhar, mas já nos 100 metros a frente, o mate virou cerveja, os 10 pesos foram tirados do bolso e o neto correu pra comprar na tienda, buteco, coisa da gente. Caminhamos, já entrando na casa, o menino alcança na soleira da porteirinha, casinha rebocada e não pintada, chão de terra batido, num quintal que deve ser varrido uma vez por dia. Entramos, ali o aperto deu os primeiros sinais, uma emoção fustigada, que só ia aprofundar, ao conhecer os 9 netos e os 400 pesos que vivem ali com eles, aquele litro de cerveja brinde de ocasiões muito especiais, o pão caseiro, o calor, aquela alegria, o quichuá perpassados pelas gerações, aqueles pezinhos descalços na terra, a humildade vestida de luta e de alegria. 
Aquilo apertava a umidade no alto do nariz e no começo dos olhos. Sentados como alunos, vendo a vida ensinar por que pés a América Latina anda. A única coisa que podíamos passar foi a emoção, o orgulho e a meritocracia da geografia política de explicar aonde ficava o Japão.
-Mi sobrino se fue para Japón, caso con una chica allá. Japón es cerca no?
-No, Japón se queda de otro lado del mundo, nosotros de Brasil que somos vecinos de Argentina.
Ali os encontros são importantes. Fomos conhecer a casa, vimos aqueles retratos das famílias, com o busto de cada filho sorrindo e a serenidade dos pais, a velha faca de prata de 100 anos, a bota do pai. De volta pro quintal, bebericamos a cerveja, comemos mais do pão seco, as crianças não acreditavam nas suas próprias fotos, os vizinhos de cerca bradavam pelo álcool, a tarde caía, chegava hora de ir embora.
Venho uma explanação da senhora, com aquele óculos fundos, com aquele sorriso aberto interrompido.
-Ustedes van a Santiago, no se olviden del nuevo terminal de ómnibus. Por acá hablan que ni en estados unidos hay un igual. Las puertas abren solas. Es como magia.
...que mundo, esse sistema, que loucura...que sutilezas estranhas frutos da globalização, que engole e cospe. Eu talvez estivesse engolindo, será que vou cuspir da mesma forma?? Não acredito e não quero. 
O último convite surgiu, de voltarmos no final do ano e ficar ali 3 dias no campo, de certo de onde saía os 400 pesos que mantinham aqueles 2 trabalhadores e os 9 latino-americaninhos.
Ali, o aperto tava demais, o orgulho de conhecer aquelas pessoas eu explico e deixo pros acasos da vida. Aquela caminhada de volta a estrada. O cansaço mental pela primeira vez era muito maior que o físico. O último abraço, o encontro, a oportunidade única e o choro que descia fino. Ali era América Latina até no último suor.










Em 30 minutos estávamos em cima de um caminhão com um sujeito calado, era reciproco, o cansaço batia, foi um acordo sem palavras. A noitinha caía, o sono e a reflexão batia. Era Forres, o caminhoneiro perguntou se tínhamos dinheiro pra comer, foi sim, muchísimas gracias, hasta luego. Em mais 30 minutos de coletivo, era Beltrán, era Vilmer, era La Banda, era Santiago del Estero. Comprando duas barracas de praia e rimos muito do próprio dissabor, afinal é camping, é banho e é sono.