segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Las pampas argentinas

Depois de dormir cerca de 3 horas e meia na estação, levantamos. É hora de café da manhã. Corremos em um supermercado, compramos comidas e frutas. Dali, tomamos mais uma hora de coletivo até Ibarlucea, cidade conurbada a Rosário, nos dividimos e ali começaria a nossa viagem a dedo. Eu e Natália, Tatiana e Sindri. Ficamos 10 minutos naquele trevo, enquanto víamos de longe, a Tatiana e o Sindri andar por aquela paisagem plana, sem muito mudança, em extensos campos de soja. As pampas argentinas que nos acompanhava desde de Buenos Aires e iria nos acompanhar até Pozo Hondo. Nossa primeira carona, foi um argentino de Totoras, que voltava da balada em Rosário, que por fim não nos passou medo. Tinha uma leve impressão, que depois dali dormiria um dia todo. A nossa surpresa, foi que a divisão em dois casais não demorou muito. Aquele homem, andou 1 km e pegou os meninos. Fomos até a entrada de Totoras. Tardou uns 20 minutos, e já estávamos pegando outra carona, e outra carona JUNTOS. Conhecemos o Carlos Zarate, um caminhoneiro comum que anda por essas estradas latino-americanas, em que faz sua vida em carregamentos de soja por grande parte do ano. O incrível é a solidariedade desse homem, tivemos muita sorte em conhece-lo. Em tese, não poderíamos andar na sua cabine, éramos quatro. Pra isso, ele criou com mais 2 amigos, um sistema de viagem. Grande parte das viagens eles fazem juntos e se comunicam para ajuda mútua. Em San Genaro, conhecemos seu amigo, o Sebastian. Um caminhoneiro bem mais silencioso, e que levava uma expressão que a vida até ali, tinha sido muito dura com ele. Nós fomos a companhia dele, por cerca de 500 km. Dale mate. Ao longo da viagem, conseguimos com nossa energia e talvez nossa loucura, saber mais da história dele. Como grande parte dos caminhoneiros na Argentina, sua grande maioria, por descuido, engravida uma menina e depois tem o compromisso de casar. Grande parte deles, acaba virando caminhoneiro, como refúgio e como forma de viver. Passamos por muitas cidadezinhas, uma em especial, Rafaela, parecia um filme americano. A típica cidade pequena, aonde tudo a primeira vista funciona e que talvez prospere em torno de uma atividade de agropecuária. Por fim, tínhamos duas opções, ir até a última cidade de Santa Fé, que se chama Ceres, assim continuando na ruta 34, ou ir até Bandeira no estado de Santiago del Estero, que era fora da ruta 34. Como éramos mochileiros de primeira viagem, resolvemos ir até Bandeira. Talvez um mochileiro mais experiente, se daria conta que o dia seguinte era um domingo e que a ruta que entraríamos de longe era muito menos movimentada. Chegamos a Bandeira, com um senso de ajuda e solidariedade daqueles caminhoneiros tão incrível, que talvez no mundo nem tudo esteja perdido. Bandeira é a típica cidade pobre, que vive aos seus arredores muitos latifundiários de soja e algodão. A cidade mesmo é de gente que trabalha nas fazendas. As ruas são de chão de terra batida. A quantidade de caminhoneiros é grande. Ali é onde, "chicas que piden un cigarrillo y venden amor". Nossa jantar foi uma pizza com cerveja doada por eles, por fim fizemos uma reuniãozinha aonde chegou uns outros caminhoneiros. No finalzinho da noite, fomos convidados para ir na única festa daquela cidade, não aceitamos, seria muito aproveitar da bondade, e no outro dia teríamos um dia longo. Nossa casa, por oferta deles, foi na carreta aonde eles levam soja, com direito até fogareiro como calefação. Típico clima seco, que durante o dia faz um calor tremendo e de noite um frio de lascar. Dormimos...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

La partida



Após um mês de viagem, com a intensidade dos encontros, despedidas, da vida e dos sentimentos, sinto que tenho que começar a contar a viagem ao norte argentino.
E ela começou exatamente da capital porteña, tomamos um trem de última hora, coisa diferente não poderia acontecer, a arte do improviso torna a coisa mais gostosa. O improviso veio pela dona da casa(Tatiana), chegando 13:28, 2 minutos antes do barulho do trem indicar nossa partida.
Tomamos o trem, sentir e entrar na onda de 4 estudantes (eu, Sindri, Tatiana e Natália) com sede de conhecer o mundo é algo surpreendente. Para isso, fui ouvir Natália e o seu jornalismo literário. Como ela me despertou pra uma coisa muito importante: como não conheço a América Latina, como não conheço sua literatura, como não conheço sua história...isso com certeza não é privilégio meu, sou um total leigo presunçoso, mesmo tendo raízes argentinas. Sentei e comecei a ler nosso recorrido, num relato tão especial de Martín Caparrós em El Interior. Comecei a ler, cidade por cidade, e entender a rixa da capital argentina com o resto do país. Para nós brasileiros, e meu pé em Minas Gerais com todas as suas ligações, me distancia e me torna um pouco incompreensível esse entendimento da briga dentro do próprio país. Isso passa muito longe da fraca besteira sulista e a por vezes, da soberbia paulista. É difícil conceber a bronca argentina consigo mesma.
E por aí foram 6 horas de trem, agradabilíssimas. Conhecemos tanta gente, devemos muito pela nossa  energia de estarmos abertos ao mundo. Pra mim e pra Tatiana até abraçamos o mundo, Natália e Sindri se jogam como crianças. Conhecemos e conversamos muito com 4 estudantes e com o misterioso segurança do trem. Chegando a Rosário, depois da troca de contatos, fomos convidados pra um café. A linda cidade a beira do Paraná, onde nasceu Che Guevara, nos mostrou uma solidariedade sul americana, era visível como aquele segurança vibrava com a nossa falta de juízo, de andar por aí sem dinheiro. Havia também, fora do kiosko, um velho operário argentino que conversava com a gente, contando suas histórias de quando morou em São Paulo na década de 70. Aquele segurança, atento a onda espiritual do Sindri, me despertava a maldita consciência mineira, presente quando é bom demais, o santo desconfia. Comemos as empanadas presenteadas e matamos a fome. Ele saiu e pediu pra esperar, saímos antes, minha ansiedade de desconfiança era grande. Mas a energia fomentada era tão boa, que seria difícil passar algo com a gente. Nós podíamos tudo, como eu me senti livre. Livre, mas a ficha caiu que não tínhamos aonde dormir. Sem lenço, sem documento e sem barraca...cruzamos a esquina e encontramos um bar brasileiro. SIM, um bar brasileiro com nome em inglês. STOP IN BRAZIL!! Parecíamos yankes com a bunda de fora ao chegar no Rio de Janeiro. A saudade era tanta que esquecemos do pouso, nos esbaldamos na caipirinha e no samba que rolava lá. Eram brasileiros, num samba meio pagode, mas que completava qualquer ausência naquele momento. Conhecemos uma brasileira de Niterói, ensinamos Tatiana sambar. O brasileiro sabe sambar, a origem do samba mesmo, talvez algum acerte que começou na Bahia...mas saber que a dança veio de esmagar jaca no chão, foi demais. A jaca, o samba e eu ali aprendendo cultura brasileira a 1:30 da manhã. O bairro de Buenos Aires que os argentinos costumam ir de avião eu realmente vi pouco. Rosário deixou vontade de quero mais. O trem era algo indefinido, eu e Natália fomos curtir mais um pouco a amizade, Sindri e a Tatiana já cochilavam no cansaço de 2 da manhã. A cara da boêmia estava numa argentina, se bebo...logo sento. Sentamos, fumamos e bebemos com uma estudante como nós. O trem de Tucumán nunca existiu...era pra Córdoba. A menina boêmia se foi, nós ficamos e onde dormiríamos?  Na estação. O segurança misterioso do trem apareceu novamente como andarilho, oferecendo a carreta do trem, mas o segurança da estação já havia nos instalado no chão de onde se embarca. Ali foi a nossa primeira casa. Dormimos... 



O eu, os encontros e o mundo.

Essa música anda me traduzindo tanto nos últimos 9 meses. Cada frase faz tanto sentido e tanta prática...sem mais...


Mistério do Planeta - Novos Baianos


Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso,
Jogando meu corpo no mundo,
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus
Ou vestidos de lunetas,
Passado, presente,
Participo sendo o mistério do planeta
O tríplice mistério do "stop"
Que eu passo por e sendo ele
No que fica em cada um,
No que sigo o meu caminho
E no ar que fez e assistiu
Abra um parênteses, não esqueça
Que independente disso
Eu não passo de um malandro,
De um moleque do brasil
Que peço e dou esmolas,
Mas ando e penso sempre com mais de um,
Por isso ninguém vê minha sacola