quinta-feira, 6 de outubro de 2011

La partida



Após um mês de viagem, com a intensidade dos encontros, despedidas, da vida e dos sentimentos, sinto que tenho que começar a contar a viagem ao norte argentino.
E ela começou exatamente da capital porteña, tomamos um trem de última hora, coisa diferente não poderia acontecer, a arte do improviso torna a coisa mais gostosa. O improviso veio pela dona da casa(Tatiana), chegando 13:28, 2 minutos antes do barulho do trem indicar nossa partida.
Tomamos o trem, sentir e entrar na onda de 4 estudantes (eu, Sindri, Tatiana e Natália) com sede de conhecer o mundo é algo surpreendente. Para isso, fui ouvir Natália e o seu jornalismo literário. Como ela me despertou pra uma coisa muito importante: como não conheço a América Latina, como não conheço sua literatura, como não conheço sua história...isso com certeza não é privilégio meu, sou um total leigo presunçoso, mesmo tendo raízes argentinas. Sentei e comecei a ler nosso recorrido, num relato tão especial de Martín Caparrós em El Interior. Comecei a ler, cidade por cidade, e entender a rixa da capital argentina com o resto do país. Para nós brasileiros, e meu pé em Minas Gerais com todas as suas ligações, me distancia e me torna um pouco incompreensível esse entendimento da briga dentro do próprio país. Isso passa muito longe da fraca besteira sulista e a por vezes, da soberbia paulista. É difícil conceber a bronca argentina consigo mesma.
E por aí foram 6 horas de trem, agradabilíssimas. Conhecemos tanta gente, devemos muito pela nossa  energia de estarmos abertos ao mundo. Pra mim e pra Tatiana até abraçamos o mundo, Natália e Sindri se jogam como crianças. Conhecemos e conversamos muito com 4 estudantes e com o misterioso segurança do trem. Chegando a Rosário, depois da troca de contatos, fomos convidados pra um café. A linda cidade a beira do Paraná, onde nasceu Che Guevara, nos mostrou uma solidariedade sul americana, era visível como aquele segurança vibrava com a nossa falta de juízo, de andar por aí sem dinheiro. Havia também, fora do kiosko, um velho operário argentino que conversava com a gente, contando suas histórias de quando morou em São Paulo na década de 70. Aquele segurança, atento a onda espiritual do Sindri, me despertava a maldita consciência mineira, presente quando é bom demais, o santo desconfia. Comemos as empanadas presenteadas e matamos a fome. Ele saiu e pediu pra esperar, saímos antes, minha ansiedade de desconfiança era grande. Mas a energia fomentada era tão boa, que seria difícil passar algo com a gente. Nós podíamos tudo, como eu me senti livre. Livre, mas a ficha caiu que não tínhamos aonde dormir. Sem lenço, sem documento e sem barraca...cruzamos a esquina e encontramos um bar brasileiro. SIM, um bar brasileiro com nome em inglês. STOP IN BRAZIL!! Parecíamos yankes com a bunda de fora ao chegar no Rio de Janeiro. A saudade era tanta que esquecemos do pouso, nos esbaldamos na caipirinha e no samba que rolava lá. Eram brasileiros, num samba meio pagode, mas que completava qualquer ausência naquele momento. Conhecemos uma brasileira de Niterói, ensinamos Tatiana sambar. O brasileiro sabe sambar, a origem do samba mesmo, talvez algum acerte que começou na Bahia...mas saber que a dança veio de esmagar jaca no chão, foi demais. A jaca, o samba e eu ali aprendendo cultura brasileira a 1:30 da manhã. O bairro de Buenos Aires que os argentinos costumam ir de avião eu realmente vi pouco. Rosário deixou vontade de quero mais. O trem era algo indefinido, eu e Natália fomos curtir mais um pouco a amizade, Sindri e a Tatiana já cochilavam no cansaço de 2 da manhã. A cara da boêmia estava numa argentina, se bebo...logo sento. Sentamos, fumamos e bebemos com uma estudante como nós. O trem de Tucumán nunca existiu...era pra Córdoba. A menina boêmia se foi, nós ficamos e onde dormiríamos?  Na estação. O segurança misterioso do trem apareceu novamente como andarilho, oferecendo a carreta do trem, mas o segurança da estação já havia nos instalado no chão de onde se embarca. Ali foi a nossa primeira casa. Dormimos... 



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